fbpx

Entrevista com o Professor Diego Pautasso sobre Coreia do Norte

Entrevista com o Professor Diego Pautasso*.

O Professor Diego deu uma entrevista exclusiva para Coreia do Norte em Foco. Ele fala da sua visita ao país e do curso que ministrará sobre a Coreia do Norte.

1. Você esteve na Coreia do Norte. Quais as impressões que ficaram do país?

Estive na Coreia do Norte em julho de 2019, na condição de coordenador acadêmico de uma delegação de onze pesquisadores.

Foram duas semanas intensas, em que atravessamos o país de norte a sul, efetuando visitas a museus, fábricas, unidades de produção rural, zona fronteiriça com a Coreia do Sul (Panmunjom), universidades, hospitais, entre outros. Além disso, participamos de cursos e debates promovidos pela Associação Coreana de Cientistas Sociais.

Sobre a viagem, antes de qualquer coisa, cabe uma ressalva. Sabe-se que toda visita a um país é sempre um retrato parcial, seja guiada pelo governo ou pelas atrações turísticas convencionais – a maioria das pessoas que vai a Paris, por exemplo, fica na região central, e não nas periferias violentas. Apesar dos limites da empreitada em questão, entendemos que esse relato auxilia a dirimir a imagem estereotipada de um país que de fato enfrenta muitas dificuldades, mas está longe de ser um enigma incompreensível.

Assim, a impressão de quem visita a República Popular Democrática da Coreia (RPDC) sempre recai numa certeza: o país não se resume a desfiles militares, tal como apresentado na grande mídia ocidental. E, apesar das adversidades, que passam pela guerra, pela divisão da Península, pelos embargos e sanções, pelo isolamento relativo pós-colapso do socialismo real, entre outros, surpreende a altivez do povo e a autossuficiência da economia, bem como a limpeza, organização e operacionalidade das cidades, de seus grandes espaços públicos, etc.

Agora, se, como diz Ortega y Gasset, “O homem é o homem e a sua circunstância”, certamente um país também depende das suas circunstâncias, ou seja, de sua história, geografia e do contexto geopolítico no qual está inserido. Não raro, observamos certos analistas e personalidades políticas tecerem comentários sobre o país completamente abstraídos de seus contextos e idiossincrasias – como se a realidade política estivesse circunscrita ao campo do desejável. Pior: é comum, mesmo no âmbito das esquerdas, replicar esse tipo de narrativa e senso comum sem qualquer lastro científico.

2. O socialismo Juche tem as suas peculiaridades. Como você caracteriza a ideia Juche?

É preciso entender que o socialismo não deve ser compreendido como uma moldura rígida, um tipo ideal a-histórico alheio às contradições que, inevitavelmente, marcam o conjunto dos processos de grande ruptura político-social. Ao contrário, a opção pelo socialismo orienta certas formas de governo e diretrizes econômicas para um país, bem como estabelece uma ideia-guia que sustenta ideologicamente suas movimentações. É imperativo à sobrevivência de qualquer país socialista – seja a antiga URSS, a China, Cuba, o antigo Iêmen do Sul ou a Coreia do Norte – desenvolver e aclimatar seus objetivos de largo prazo às condições geográficas, históricas e culturais de suas respectivas civilizações.
Nesse sentido, a ideia Juche ilustra a mais acabada ideologia-guia que rege a construção do socialismo coreano. Com sua particularidades, esboça ênfase na autossuficiência e na soberania nacionais; reflete a herança de uma civilização que resistiu aos avanços de poderosos impérios no seu entorno regional e desenvolveu uma renhida luta de libertação nacional; além do mais, assume perspectiva de assertiva resiliência frente à difícil situação internacional na qual se insere o país.

3. A Coreia do Norte passa por um período de modernização aliado ao fortalecimento do programa nuclear. Como isso é possível dentro do cenário mundial de crise econômica?

Ironicamente, o fato do país estar menos conectado aos fluxos globais de riqueza, também, o torna menos sujeito às crises financeiras sistêmicas. E, com efeito, a intensidade das sanções, também, favorece a maior ênfase em políticas duradouras orientadas pela busca da autossuficiência nacional. Por isso, a Coreia produz desde alimentos até armamentos sofisticasdos, passando por roupas, eletrodomésticos e montagem de veículos automotores. Afinal, o país teve de encontrar soluções genuinamente nacionais, frente aos constantes constrangimentos internacionais a que foi submetido.
Aliás, o desenvolvimento do programa nuclear é um meio inescapável para garantir o sucesso de modernização econômica da nação.

Expliquemos: ao fortalecer o poder dissuasório nuclear, o país pode reduzir os gastos com forças armadas convencionais e, com isso, mobilizar essa energia e recursos para fazer avançar diretrizes econômicas mais complexas. Essa tem sido a ênfase da atual liderança norte-coreana, Kim Jong Un, visando superar as dificuldades herdadas do colapso do campo soviético, do constante cerco internacional e dos percalços da Marcha Penosa, ocorrido em meados da década de 1990 – quando se entrelaçaram dificuldades políticas, econômicas e sociais com um panorama de sequenciais catástrofes ambientais que atingiram o país.

4. Do ponto de vista geopolítico qual a lógica do imperialismo estadunidense em querer dominar a parte norte da Península?

Por partes. A lógica do hegemonismo é a de manter a presença militar ostensiva global, de qualquer maneira. Nenhuma peça do tabuleiro pode ou deve ser perdida. Além da Coreia ter imposto aos EUA a primeira guerra na qual assinaram um armistício sem tê-la vencido – uma verdadeira espinha na garganta -, a própria Península possui uma posição evidentemente estratégica.

Hoje, os EUA têm mais de 20 mil soldados postados na Coreia do Sul, e impõem toda sorte de bloqueios, embargos, chantagens e cerco militar aos norte-coreanos não pela suposta “ameaça” constituída por seu programa nuclear, mas exatamente por ocuparem parcela territorial crucial para a concretização dos interesses estadunidenses na região.

O prolongamento e manutenção do conflito, e a decorrente propagação da narrativa da “ameaça norte-coreana”, legitima politicamente a presença militar estadunidense na Península e arredores, que estão umbilicalmente conectados com a China e com a Rússia, compondo parte de uma grande frente militar de Washington na Ásia Oriental – justamente num momento em que o epicentro geoeconômico do mundo transita do Atlântico Norte para o Pacífico Oriental.

5. Você ministrará o curso “Para entender a Coreia do Norte; socialismo e geopolítica”, do dia 7 ao 10 de setembro. Qual será o foco do curso?

Pouco temas são tão envoltos de abordagens sensacionalistas e fantasiosas como aqueles vinculados à Coreia do Norte. Isso inclui desde notícias sobre a possibilidade de uma iminente guerra nuclear até aquelas que propagandeiam a existência de desequilíbrios psicológicos de seus dirigentes. A realidade, porém, desmente o conjunto desses arranjos. Os movimentos diplomáticos desse conflito são calculados de lado a lado, e o paradigma norte-coreano deve ser apreendido sobretudo a partir da perspectiva de de uma experiência de desenvolvimento que, desde a conquista de sua independência política, enfrenta toda sorte de percalços para ensejar uma processo mais amplo de progresso econômico e social.

Consequentemente, pretendemos abordar no curso “Para entender a Coreia do Norte: socialismo e geopolítica” os aspectos históricos da formação da RPDC – incluindo as etapas de domínio do imperialismo japonês, da guerra civil e do triunfo da revolução -, o processo de conformação do socialismo coreano durante Guerra Fria e os principais desafios ascendentes frente ao panorama pós-colapso da URSS. Nesse mesmo sentido, discutiremos as consequências e dinâmica dos sucessivos embargos impostos ao país, além das principais orientações da inserção internacional norte-coreana, e a forma como esta interage com os conflitos regionais articulados na Península.

Em outras palavras, pretendemos abordar o complexo cenário geopolítico regional, também enfatizando as delicadas questões militares a ele relacionadas. Isso inclui compreender não apenas os interesses dos dois lados da Península, mas sobretudo de atores políticos como a China, o Japão, a Rússia e os EUA. Em suma, esse conflito possui uma dinâmica que ultrapassa as relações inter-coreanas, refletindo múltiplos arranjos de poder com consequentes impactos para o conjunto da ordem mundial.

E mais importante: nosso objetivo é oferecer os melhores dados e a mais consistente bibliografia vinculada ao tema, de forma a escaparmos das superficialidades dos choques de narrativas. O rigor científico é imperativo, ainda mais num contexto repleto de desinformação, preconceitos e negacionismo.

*Resumo do currículo do Professor Diego Pautasso.

• É doutor e mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Fez pós-doutorado em Estudos Estratégicos Internacionais/UFRGS.

• Em 2019, foi coordenador acadêmico de uma missão de duas semanas à República Popular Democrática da Coreia.

• Autor do livro China e Rússia no pós-Guerra Fria. Editora Juruá, 2011.

 

Veja no link abaixo a programação do curso:

https://elahp.com.br/para-entender-a-coreia-do-norte-socialismo-e-geopolitica/

2020 – perspectiva preocupantes e desafiantes

Wladimir Pomar

É muito provável que 2020, ainda mais do que 2019, seja marcado na história brasileira como uma realidade preocupante e, além disso, desafiante. Mesmo porque o governo bolsonarista deve continuar tentando desmontar as poucas conquistas do povo em todos os campos da sociedade brasileira.

No caso da economia brasileira, para que ela realmente melhore, seria imprescindível que o Estado intervisse eficazmente para elevar os investimentos na diversificação e no fortalecimento da produção industrial. Só desse modo as atividades econômicas poderiam crescer e induzir os empresários privados, inclusive estrangeiros, a também investirem, ampliando substancialmente tanto a oferta de postos de trabalho, quanto a produção de riqueza e a ampliação das correntes de comércio.

No entanto, a política econômica comandada pelo Posto Ipiranga não tem em vista a elevação da capacidade produtiva. Deve continuar consistindo em enxugar postos de trabalho, arrochar salários, reduzir as despesas governamentais com os pobres (benefícios diretos, educação, saúde etc), e apresentar saldos positivos irreais nas contas do governo. Portanto, a perspectiva para a maior parte da população, especialmente para os trabalhadores, deve ser ainda pior do que a do final de 2019.

 A taxa de desocupação, por mais que seja mascarada pelo esforço de contabilizar como positivos os trabalhadores informais, deve continuar subindo e inflando o número de brasileiros excluídos do mercado de trabalho e/ou subutilizados. Num quadro como esse, a violência urbana e rural tende a ser agravada e se tornar ainda mais letal com a política indiscriminada de segurança pública. E tende, além disso, a servir de pretexto para reduzir os direitos democráticos e consolidar o regime discricionário sonhado pelo bolsonarismo, cujo parâmetro é o AI-5 da finada ditadura militar.

Portanto, para piorar, as reformas econômicas em curso tendem a tornar o 1% da população ainda mais rico, enquanto a maioria pobre e parte da classe média vão ser empurradas para uma pobreza ainda maior. Mesmo porque a subordinação da política externa brasileira às políticas globais norte-americanas também tende a aumentar o déficit do comércio externo com esse país e influir negativamente no quadro econômico brasileiro.

Isso porque a tendência predominante daquela potência é de fechamento comercial e de exclusivismo nas relações com os demais países. O capitalismo estadunidense está em crise estrutural e se torna, cada vez mais, incapaz de praticar políticas eficazes para enfrentar a crescente concorrência internacional nos campos tecnológico e comercial. E encontra dificuldades também crescentes para substituir o desemprego tecnológico por novas políticas de diversificação do uso da força de trabalho humano.

Nessas condições, a atual luta de Trump contra a globalização, movimento implementado pelo próprio capitalismo norte-americano através de suas grandes empresas transnacionais, tem por objetivo fazer com que os Estados Unidos retomem o papel hegemônico que possuíam, explorem ao máximo toda e qualquer nação que aceite tornar-se sua vassala, a exemplo do que pretende Bolsonaro e sua trupe, e recupere sua capacidade produtiva. O problema, neste último caso, é que isso só seria possível se capitalismo estadunidense retornasse ao fordismo dos anos 40, algo extremamente irreal.

De qualquer modo, a sonhada aliança vassala do Brasil com os Estados Unidos tende a se tornar cada vez mais difícil justamente pelos problemas reais enfrentadas pelo imperialismo americano e pelo crescente papel da China na economia mundial. Não por acaso, todas as promessas eleitorais de Bolsonaro contra os chineses acabaram por ser remodelas através do reconhecimento esdrúxulo de que a China comunista é, supostamente, capitalista.

De qualquer modo, mesmo que a China continue comprando parte considerável da produção do agronegócio e investindo na produção industrial brasileira, isso será uma parcela diminuta das necessidades atuais do Brasil. Este, para se reerguer, precisa pelo menos recuperar a capacidade que a indústria brasileira havia alcançado antes que o neoliberalismo de FHC começasse a destrui-la. E isso não faz parte dos planos neoliberais do Posto Ipiranga e da parte majoritária da burguesia nativa.

Além disso, essas interrogações econômicas continuarão povoando as relações entre as diversas correntes burguesas e o bolsonarismo. O que tende a recriar divergências no campo das forças políticas de direita, relacionadas não só com a administração da economia, mas também com a política externa, a educação, a cultura, a liberdade de imprensa e outros itens que influenciam as disputas ideológicas e políticas objetivamente presentes na sociedade brasileira.

Há setores burgueses que viveram a crise do milagre econômico ditatorial, sabem que as condições atuais para qualquer tipo de “milagre” na economia são totalmente diferentes e contrárias às existentes nos anos 1960/70, e temem cair em algo ainda pior do que a crise daquele período. Em vista disso, tais divergências podem continuar desempenhando um papel importante no combate às políticas bolsonaristas, se as correntes ideológicas e políticas de esquerda souberem explorá-las e incentivá-las no espírito de Sun Tsu. Isto é, incentivando as tropas reacionárias a combater entre si, mas jamais supondo-as aliadas.  

Além disso, e principalmente, se essas forças da esquerda caminharem para uma unidade estratégica consistente e para unidades táticas diferenciadas. Para isso, a maior parte desse campo político de esquerda também precisará dar menos importância às bizarras trapalhadas bolsonaristas e deixar de lado a suposição de que o fracasso das políticas neoliberais terá o condão de, por si só, derrotar Bolsonaro e companhia em 2022.

Talvez mais importante do que tudo, as forças políticas de esquerda devam considerar como questões chaves a serem resolvidas a avaliação dos erros estratégicos e táticos que as conduziram a desligar-se das grandes camadas populares da população, não considerarem a luta contra a corrupção uma questão estratégica, e desdenharem o socialismo como opção estratégica para realizar o desenvolvimento econômico e social e retirar o Brasil da crise.

Porém nenhuma dessas questões é de simples resolução. Por incrível que pareça, ainda há estúpidos que consideram desnecessário ou puro stalinismo o reconhecimento de erros e sua correção, embora a história esteja cheia, no Brasil e no mundo, de “ismos” que foram enterrados por se negarem a realizar essa operação de reconhecimento e correção dos erros.

Além disso, a reconstrução de laços profundos e permanentes com as grandes camadas populares da população (os trabalhadores, empregados, precarizados e/ou desempregados, e as camadas médias de baixa e média renda) demandam trabalhos constantes de pesquisas, organização e reorganização, e participação ativa em sua vida e em sua luta diária. A luta permanente contra a corrupção demanda tanto a denúncia pública das negociatas da burguesia e de seus representantes políticos, quanto a pressão social sobre o sistema de justiça e a constante verificação e correção internas.

Já a opção socialista como instrumento de desenvolvimento econômico e social exige que o Estado seja reformulado. Primeiro, de modo a se tornar, através de forças produtivas efetivas, um forte concorrente econômico no mercado, um orientador efetivo no processo de desenvolvimento científico e tecnológico das forças produtivas. Segundo, como um agente efetivo na elevação e na redistribuição menos desigual da renda nacional. Terceiro, como impulsionador e facilitador da educação, da saúde, do bem-estar e da cultura da sociedade como um todo.

E, tão importante quanto os itens anteriores, como agente ativo na ampliação dos direitos democráticos, de modo permitir que todo o povo brasileiro participe efetivamente das decisões que dizem respeito à sua atualidade e a seu futuro.

Assim, vistas as perspectivas acima, a realidade brasileira que se descortina para 2020 também é preocupante e desafiante. Por tudo isso, não há como desconsiderar a possibilidade das atuais forças políticas populares e de esquerda do Brasil se verem colocadas diante do mesmo desafio enfrentado um dia pelo imperador romano Júlio César, obrigando-o a reconhecer Alea jacta est!

Bem que estamos avisando

O Chile era a referência predileta do Posto Ipiranga do governo Bolsonaro, assim como do seu chefe, para justificar suas “reformas” e seus “projetos” para um “novo Brasil”. Por azar ou por desígnio divino, porém, além das incontáveis trapalhadas que armam por toda parte e em todos os terrenos da vida brasileira, ambos estão sendo obrigados a se confrontar com a decisão do povo chileno de mostrar a todo o mundo o que realmente significa a aplicação das políticas neoliberais.

Apesar de mostrar um crescimento de 2,5%, uma inflação de 2% e um PIB per capita de 16 mil dólares, algo que está longe de ser alcançado pelo Brasil comandado pelos neoliberais caboclos, bastou mais um aumento na passagem do metrô para colocar multidões chilenas em confronto direto com seu governo, perderem o receio de enfrentar as tropas policiais e militares e levarem o governo a ter que dialogar a respeito de mudanças de fundo nas políticas econômicas e sociais.

Tornaram-se evidentes que os números, supostamente positivos, do crescimento econômico, da inflação e do PIB per capita, não conseguiam esconder que o problema do Chile reside no fato de que as políticas neoliberais conduziram a esmagadora maioria de sua população a uma profunda desigualdade social e à completa precariedade de seus direitos.

O coeficiente de Gini chileno, indicador do grau de riqueza ou pobreza de sua população, é 0,47. Isto é, está a meio caminho entre os países médios e os mais pobres (o coeficiente do Brasil já está acima de 0,60). A concentração da renda, por outro lado, é tão brutal quanto a brasileira: 0,1% detém 19,5% de toda a renda nacional, 1,0% detém 33%, e 5% detém 51,5%.

Por sua vez, entre 2009 e 2019, o custo de vida chileno cresceu 150% e o custo dos transportes se elevou 40%. Na outra ponta, os salários só foram reajustados em 25%. E a aposentadoria pelo sistema de capitalização, um dos sonhos do Posto Ipiranga de Bolsonaro, ficou estacionada entre 30% a 40% do salário mínimo, mantendo a velhice num grau de miséria insuportável.

A economia chilena, apesar ou por causa desses “sucessos”, sempre foi elogiada pelo bolsonarismo e pelo 1% do topo da pirâmide social brasileira. Deveria ser o exemplo a ser seguido pela economia do Brasil. Não por acaso, mesmo no Japão e sem ter informações precisas do que está ocorrendo no Chile, e sem levar em conta o pedido de desculpas do presidente chileno a seu povo, Bolsonaro lançou farpas por achar que esse povo está fazendo uma besteira ao se levantar contra a mais elogiada das experiências neoliberais.

E, na linha costumeira de considerar que qualquer levante popular é obra e arte da “esquerda”, ou do “marxismo cultural”, embora acredite piamente que o povo brasileiro jamais fará a “besteira” que o povo chileno está fazendo em oposição à política econômica sonhada pelo 1% endinheirado da elite brasileira, alertou as forças armadas para estarem prontas contra qualquer tentativa esquerdista de alteração da ordem pública.

Lembremos, no entanto, que no final do governo Fernando Henrique levantes semelhantes não ocorreram no Brasil porque havia a esperança de mudanças com a eleição de Lula para presidente. Por outro lado, os erros de política econômica praticados a partir de 2010 levaram aos levantes de 2013, que ajudaram nos processos golpistas que resultaram no impedimento do governo Dilma e na consolidação do golpe direitista com a vitória de Jair Bolsonaro em 2019.

Dizendo de outro modo, levantes populares e até revoluções fazem parte da história de todos os países e povos como reações a políticas que ferem os meios de vida da maior parte da população. Achar que correntes políticas podem decidir sua ocorrência é de uma infantilidade que só os mitos, esquerdistas ou direitistas, são capazes de supor.  

De qualquer modo, a história está mostrando que as reformas neoliberais, exigidas pelos milionários nativos e estrangeiros, tendem a aprofundar as desigualdades sociais e a levar camadas crescentes das populações à miséria e ao desespero. Nessas condições, basta um pequeno aumento de bilhete de transporte para originar uma reação em cadeia dos prejudicados. 

Ao invés de alertar as forças armadas para estarem prevenidas contra qualquer mobilização popular, seria conveniente que os atuais detentores do governo central brasileiro, assim como seus representantes no legislativo, levassem em conta que as condições de vida e de trabalho das populações brasileiras são piores do que as chilenas. E que as reformas pretendidas pelos teóricos neoliberais do Posto Ipiranga tendem a piorá-las ainda mais.

Nessas condições, o melhor para o governo brasileiro de plantão seria empenhar-se para aumentar os investimentos públicos e privados capazes de fortalecer a indústria nacional, modernizar sua infraestrutura, garantir uma real retomada do desenvolvimento econômico, criar milhões de novos empregos e ampliar o processo de participação democrática. Ou seja, seguir um caminho de reformas que nada tem a ver com os projetos neoliberais de arrancar o couro do povo para aumentar a riqueza dos ricaços.

Se, afinal, o caminho perseguido continuar sendo o do neoliberalismo como praticado pelos endinheirados chilenos, não se espantem se o povo brasileiro for obrigado a seguir o exemplo do povo chileno. Afinal, bem que estamos avisando que o povo brasileiro, nessas condições, pode se ver obrigado a reclamar massivamente pelo aumento de alguns centavos ou reais em qualquer coisa.   

E espera-se pelo menos que, como Piñera, o presidente chileno, tenham a hombridade de pedir desculpas pelas políticas que levaram a tal situação, ao invés de jogarem a polícia e as forças armadas contra a população.