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O Chile era a referência predileta do Posto Ipiranga do governo Bolsonaro, assim como do seu chefe, para justificar suas “reformas” e seus “projetos” para um “novo Brasil”. Por azar ou por desígnio divino, porém, além das incontáveis trapalhadas que armam por toda parte e em todos os terrenos da vida brasileira, ambos estão sendo obrigados a se confrontar com a decisão do povo chileno de mostrar a todo o mundo o que realmente significa a aplicação das políticas neoliberais.

Apesar de mostrar um crescimento de 2,5%, uma inflação de 2% e um PIB per capita de 16 mil dólares, algo que está longe de ser alcançado pelo Brasil comandado pelos neoliberais caboclos, bastou mais um aumento na passagem do metrô para colocar multidões chilenas em confronto direto com seu governo, perderem o receio de enfrentar as tropas policiais e militares e levarem o governo a ter que dialogar a respeito de mudanças de fundo nas políticas econômicas e sociais.

Tornaram-se evidentes que os números, supostamente positivos, do crescimento econômico, da inflação e do PIB per capita, não conseguiam esconder que o problema do Chile reside no fato de que as políticas neoliberais conduziram a esmagadora maioria de sua população a uma profunda desigualdade social e à completa precariedade de seus direitos.

O coeficiente de Gini chileno, indicador do grau de riqueza ou pobreza de sua população, é 0,47. Isto é, está a meio caminho entre os países médios e os mais pobres (o coeficiente do Brasil já está acima de 0,60). A concentração da renda, por outro lado, é tão brutal quanto a brasileira: 0,1% detém 19,5% de toda a renda nacional, 1,0% detém 33%, e 5% detém 51,5%.

Por sua vez, entre 2009 e 2019, o custo de vida chileno cresceu 150% e o custo dos transportes se elevou 40%. Na outra ponta, os salários só foram reajustados em 25%. E a aposentadoria pelo sistema de capitalização, um dos sonhos do Posto Ipiranga de Bolsonaro, ficou estacionada entre 30% a 40% do salário mínimo, mantendo a velhice num grau de miséria insuportável.

A economia chilena, apesar ou por causa desses “sucessos”, sempre foi elogiada pelo bolsonarismo e pelo 1% do topo da pirâmide social brasileira. Deveria ser o exemplo a ser seguido pela economia do Brasil. Não por acaso, mesmo no Japão e sem ter informações precisas do que está ocorrendo no Chile, e sem levar em conta o pedido de desculpas do presidente chileno a seu povo, Bolsonaro lançou farpas por achar que esse povo está fazendo uma besteira ao se levantar contra a mais elogiada das experiências neoliberais.

E, na linha costumeira de considerar que qualquer levante popular é obra e arte da “esquerda”, ou do “marxismo cultural”, embora acredite piamente que o povo brasileiro jamais fará a “besteira” que o povo chileno está fazendo em oposição à política econômica sonhada pelo 1% endinheirado da elite brasileira, alertou as forças armadas para estarem prontas contra qualquer tentativa esquerdista de alteração da ordem pública.

Lembremos, no entanto, que no final do governo Fernando Henrique levantes semelhantes não ocorreram no Brasil porque havia a esperança de mudanças com a eleição de Lula para presidente. Por outro lado, os erros de política econômica praticados a partir de 2010 levaram aos levantes de 2013, que ajudaram nos processos golpistas que resultaram no impedimento do governo Dilma e na consolidação do golpe direitista com a vitória de Jair Bolsonaro em 2019.

Dizendo de outro modo, levantes populares e até revoluções fazem parte da história de todos os países e povos como reações a políticas que ferem os meios de vida da maior parte da população. Achar que correntes políticas podem decidir sua ocorrência é de uma infantilidade que só os mitos, esquerdistas ou direitistas, são capazes de supor.  

De qualquer modo, a história está mostrando que as reformas neoliberais, exigidas pelos milionários nativos e estrangeiros, tendem a aprofundar as desigualdades sociais e a levar camadas crescentes das populações à miséria e ao desespero. Nessas condições, basta um pequeno aumento de bilhete de transporte para originar uma reação em cadeia dos prejudicados. 

Ao invés de alertar as forças armadas para estarem prevenidas contra qualquer mobilização popular, seria conveniente que os atuais detentores do governo central brasileiro, assim como seus representantes no legislativo, levassem em conta que as condições de vida e de trabalho das populações brasileiras são piores do que as chilenas. E que as reformas pretendidas pelos teóricos neoliberais do Posto Ipiranga tendem a piorá-las ainda mais.

Nessas condições, o melhor para o governo brasileiro de plantão seria empenhar-se para aumentar os investimentos públicos e privados capazes de fortalecer a indústria nacional, modernizar sua infraestrutura, garantir uma real retomada do desenvolvimento econômico, criar milhões de novos empregos e ampliar o processo de participação democrática. Ou seja, seguir um caminho de reformas que nada tem a ver com os projetos neoliberais de arrancar o couro do povo para aumentar a riqueza dos ricaços.

Se, afinal, o caminho perseguido continuar sendo o do neoliberalismo como praticado pelos endinheirados chilenos, não se espantem se o povo brasileiro for obrigado a seguir o exemplo do povo chileno. Afinal, bem que estamos avisando que o povo brasileiro, nessas condições, pode se ver obrigado a reclamar massivamente pelo aumento de alguns centavos ou reais em qualquer coisa.   

E espera-se pelo menos que, como Piñera, o presidente chileno, tenham a hombridade de pedir desculpas pelas políticas que levaram a tal situação, ao invés de jogarem a polícia e as forças armadas contra a população. 

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