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Por José Reinaldo Carvalho (*)

Desde o início do governo Bolsonaro, há exatos dois meses, parte do mundo político e midiático dedica-se à tentativa de demonstrar o que parece ser o “teorema Mourão”.

O general vice-presidente opina sobre tudo. Na última segunda-feira (25), fez as vezes de chanceler ao representar o Brasil na reunião do Grupo de Lima, realizada em Bogotá para discutir a “questão venezuelana”.

Em tempo, o Grupo de Lima é um arranjo diplomático artificial, composto por países satélites do imperialismo estadunidense, governados pela direita ou extrema-direita, formado para contrabalançar o falhanço que é a Organização dos Estados Americanos (OEA), o antigo ministério das colônias dos EUA, hoje transformado num traste que não tem a mesma funcionalidade do passado na execução das ordens do império sediado em Washington.

E a “questão venezuelana” é um dos tantos contenciosos internacionais, criada pelo mesmo imperialismo, com finalidades intervencionistas. A rigor, para o povo do país vizinho e seu governo legítimo e constitucional a questão venezuelana é a continuidade da Revolução bolivariana, o aprofundamento do processo democrático-popular, a defesa da soberania nacional ameaçada, a superação da crise econômica criada pelas dificuldades objetivas e sobretudo pelas abusivas sanções econômicas, comerciais e financeiras impostas pelos Estados Unidos.

É indisfarçável que o general vice-presidente vende a imagem – para limpar o histórico de defensor do torturador Brilhante Ustra – de um oficial culto, racional, versado em Geopolítica, dado ao diálogo com a mídia e até com os movimentos sociais e a oposição. Prepara-se, desse modo, para ser alternativa ao inominável capitão, na eventualidade de uma incontornável crise política e de governo. É uma pedra cantada, tema para outros comentários.

Do que precisamos falar agora é do “axioma Mourão”, aquele que não precisa ser demonstrado, que atende pelo nome de República Bolivariana da Venezuela, ou mais simplesmente, o mandatário da altaneira nação de Bolívar e Chávez: Nicolás Maduro.

Quando fala da Venezuela o general expõe o que realmente pensa desvelando sem disfarces o seu verdadeiro alinhamento estratégico e geopolítico. E a serviço de que forças está.

A entrevista que deu à Globonews na última quarta-feira (27) é elucidativa sobre suas próprias posições, as do governo de extrema-direita de que faz parte e das Forças Armadas brasileiras: são opiniões reacionárias, opostas a tudo o que é progressista, anti-imperialista e revolucionário na América Latina.

O general vice-presidente contestou a legalidade, a legitimidade e a autenticidade da eleição presidencial de maio de 2018, quando Maduro foi reeleito: “Não resta dúvida do caráter de ilegitimidade do ‘regime’ de Maduro”, disse. Desta premissa saca a definitiva conclusão, que pelo efeito repetitivo, mais parece uma obsessão. “O Maduro tem de sair”. Fala e age como o antigo senador romano Catão, em plena guerra púnica referindo-se à resistente Cidade do norte africano: “Cartago tem de ser destruída!”

Uma posição coincidente com a de todo o establishment brasileiro e inteiramente alinhada com a do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Uma posição essencial que compromete a negativa à intervenção militar na Venezuela e à participação brasileira em tal nível de agressão. Em suma, o Brasil, pelo seu representante general Mourão, contrapõe-se à solução militar para a crise venezuelana, declarando-se simultaneamente empenhado na derrocada do presidente legítimo e constitucional do país vizinho.

A oposição brasileira à intervenção militar é, assim, tática. E contém boa dose de cálculo e pragmatismo defensivo, porquanto o Brasil não tem condições políticas, morais nem militares para enfrentar uma guerra. Para além disso, a cessão do nosso território a uma aventura militar inteiramente desligada dos interesses do país é algo que poria inevitavelmente o governo e as Forças Armadas no terreno da traição nacional.

A posição de se colocar a serviço da derrubada do presidente Maduro é antidemocrática e pró-imperialista.

Até porque na entrevista ao canal a cabo das organizações Globo o general vice-presidente enfatiza e comemora que o Brasil tem uma “aliança antiga com os Estados Unidos”.

Mourão já tinha defendido a derrubada de Maduro em seu discurso na reunião do famigerado Grupo de Lima. Desta vez, perante a bancada de jornalistas amigos, pronunciou-se um pouco mais coloquialmente. Empregou linguagem de cerco: “arrinconar Maduro, pôr Maduro no canto”. Do cerco à tentativa de aniquilamento é um passo.

O repertório de declarações do general vice-presidente incluiu o elogio ao titular da presidência, Jair Bolsonaro, por receber em Palácio o fantoche Juan Guaidó, a quem deu conselhos: “Neutralizar as milícias, arrinconar Maduro, mobilizar a comunidade internacional”, para derrubar o presidente venezuelano.

Por via das dúvidas, o general Mourão foi obrigado a admitir a possibilidade de Guaidó fracassar. É realista e deve ter tomado conhecimento das reprimendas do vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, ao fantoche que preside a Assembleia Nacional por não ter conseguido desde a sua autoproclamação como “presidente encarregado” cumprir o que prometeu – a adesão das Forças Armadas e do povo à sua aventura, e a coleta de dinheiro junto aos milionários venezuelanos para comprar apoio mediante a corrupção.

Para o caso de fracasso da operação Guaidó, o vice-presidente de Bolsonaro tirou do bolso os nomes de Leopoldo López, condenado por assassinatos, em prisão domiciliar, Antonio Ledezma, condenado pelos mesmos crimes, prófugo da Justiça, exilado na Colômbia, e Henrique Caprilles, o ex-candidato que Chávez e Maduro derrotaram duas vezes consecutivas e que também se encontra implicado em processos na Justiça venezuelana.

O reacionarismo do general vice-presidente foi além da Venezuela. Atravessou o Caribe e chegou a Cuba, a quem atacou com virulência e preconceito. Responsabilizou a maior das Antilhas por disponibilizar “milhares de agentes” para garantir a segurança de Maduro e criar as milícias. Em tempo, o general pareceu nesse particular mal informado. As Milícias Populares Bolivarianas não são um corpo com algumas centenas ou milhares de pessoas, “ex-presidiários”, mas uma força armada organizada, integrante do sistema de Defesa nacional, com 1,6 milhão de membros, homens e mulheres do povo humilde.

É espantoso que brotem ilusões em setores progressistas e de esquerda com a prédica do general e o suposto caráter progressivo atual das Forças Armadas nacionais. Outra discussão é a necessidade destas para a defesa do país em tempos de democracia e de disputas geopolíticas agudas, sob a direção de forças democráticas.

Há que descobrir em meio às energias represadas do povo – e fazer vir à tona – a consciência nacional democrática e anti-imperialista. E organizar um movimento com essa natureza como parte do combate geral pela libertação nacional e social.

As forças que se propõem desempenhar papel de vanguarda nessa lide precisam ter discernimento, em meio ao feixe de contradições que marcam este momento que estamos vivendo no Brasil e na América Latina.

(*) Jornalista, editor do Resistência, integrante do projeto Jornalistas pela Democracia

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